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quarta-feira, 27 de março de 2013

Na Coxia: Dia Mundial do Teatro


Hoje - 27/03/2013 - seria um dia em que o mundo todo deveria parar para comemorar, pois é o Dia Mundial do Teatro.
O mundo não pára, infelizmente, para comemorar uma das formas mais antigas de expressão cênica do mundo, mas nem por isso deixa de ser comemorada.
Como em todos os anos o International Theatre Institute (iTi), filiado a UNESCO, faz sua própria homenagem aos artistas teatrais. Além da mensagem em texto - que este ano é do escritor, dramaturgo e comediante italiano Dario Fo -, disponibilizou mensagens em vídeos de vários idiomas - pena que nenhum em português - que podem ser conferidos na página do World Theatre Day.
Quanto ao escritor deste ano, o dramaturgo italiano Dario Fo, ele nasceu em 1926, na cidade de San Giano, em Varese, na Itália.
Nascido em uma família de tradição antifascita, Dario Fo ingressou em 1940 na Academia de Belas Artes de Brera, em Milão. Após a guerra, começou a estudar a arquitetura no Instituto Politécnico, mas teve de desistir quando estava prestes a se formar. Afinal, fora convocado pelo exército da República de Saló, quando os facistas de Mussolini tentaram retomar o controle da Itália. Conseguiu escapar, porém, teve de ficar escondido por meses em um sótão.
Ao fim da guerra, Dario retornou a seus estudos na Academia de Brera e no Instituto Politécnico, mas depois abandonaria seus trabalho e estudos, repugnado pelo corrupção existente no setor das edificações.
Para manter Dario e seus irmãos Fúlvio e Bianca na faculdade, sua mãe Pina Rota costurava camisas. "Quando penso naquele período entre 44 e 45 me parece incrível ter vivido tantas histórias, todas condensadas num espaço de tempo tão breve. Situações grotescas, trágicas, freqüentemente vividas como se eu estivesse dentro de um pesadelo", escreveria Fo em "Il paese dei Mezaràt", em 2002.
Dario trabalhou em projetos de palcos e decoração teatral entre 1945 e 1951, porém, já começava a improvisar monológos. Participou de um momento de renovação do teatro italiano, com o fenômeno do novo teatri do piccoli (teatros pequenos) em que foi desenvolvida uma linguagem popular para as peças.
No verão de 1950, Dario apresentou a Franco Parenti uma parábola de Caim e Abel. Na sátira, Caim é um tolo que tenta imitar Abel, loiro e de olhos azuis. Após sofrer um desastre após outro, ele fica louco e mata o esplêndido Abel. Impressionado, Parenti convida Fo para se juntar a sua companhia de teatro.
Dario Fo se apresentava ao lado da mulher, Franca Rame, atriz de uma tradicional linhagem da Commedia dell'arte. Na Itália, apesar do sucesso em sua carreira pessoal, ela ainda é lembrada como filha de Domenico Rame. "Franca nasceu no teatro de 400 anos atrás", diz Fo. "Essa mulher tem pelo menos 400 anos de vida no teatro, talvez 500" - emenda. Ambos exploravam o potencial cômico dos erros no palco como parte da tradição medieval e renascentista dos artistas viajantes.
O alvo mais polêmico das sátiras de Fo é a burocracia da Igreja Católica. Para o jornal oficial do Vaticano, 'Mistério Bufo', peça de 1969, televisionada em 1977, é "o programa mais blasfemo jamais levado ao ar na história da televisão mundial". A comédia era baseada no grammelot, uma língua inventada por Fo baseada na mistura de fonemas modernos e dialetos em desuso da região padana, ao Norte da península Itálica.
Reapresentada por Fo e Franca Rame ao longo dos anos em diversos palcos, como em Moscou e Amsterdã em 1991, a sátira ainda faz sucesso. O autor recebeu o Premio Nobel de Literatura em 9 de outubro de 1997. No ano seguinte, o Ministério da Cultura da França concedeu a Fo a Comenda das Artes e das Letras. Em maio de 2000 recebeu, naquele país, três prêmios Molière por sua peça 'Morte acidental de um anarquista'.
Em dezembro de 2003 estreou sua ópera satírica "O anômalo bicéfalo", sobre Silvio Berlusconi, então chefe do governo italiano e presidente do conselho da União Européia. Em março de 2005, aos 79 anos, Dario Fo recebeu da Universidade Sorbonne, Paris, o título de laurea honoris causa.
Abaixo a mengagem de Dario Fo aos artistas teatrais:
"Há uns anos atrás, o PODER, no máximo da sua intolerância, escorraçou osartistas dos seus países. Hoje em dia, os atores e as companhias sofrem com a dificuldade de encontrar espaços, teatros e público; tudo por conta da crise.
Os governantes já não se preocupam em controlar quem os cita com ironia e sarcasmo, uma vez que os atores não têm espaços nem publico que os veja.
Contrariamente ao que acontece hoje, no período da Renascença em Itália, os governantes tiveram enormes dificuldades em controlar os atores e comediantes que conseguiam mobilizar a sociedade para assistirem aos seus espetáculos.
É sabido que o grande êxodo dos comediantes aconteceu no século da Contra-Reforma, quando foi decretado o desmantelamento de todos os espaços teatrais, especialmente em Roma, por serem acusados de desrespeito à cidade santa. O Papa Inocêncio XII, pressionado pela ala mais conservadora da burguesia e dos altos representantes do clero, ordenou em 1697 o encerramento do Teatro de Tordinona por se considerar que, neste local, diziam os mais moralistas, se faziam espetáculos considerados obscenos. Na época da Contra-Reforma, o Cardeal Charles Borromée, no norte de Itália, divulgou a consagração da redenção das “crianças milanesas” estabelecendo uma clara distinção dos nascidos na arte, como expressão máxima de educação espiritual, e o teatro, manifestação de profanação e leviandade. Numa carta endereçada aos seus colaboradores, que cito de memória, o Cardeal Charles Borromée exprime-se mais ou menos nos seguintes termos: “Nós que estamos empenhados em exterminar a planta maligna, tentaremos, lançando fogo aos textos e discursos infames, fazer com que estes se apaguem da memória dos homens, do mesmo modo que perseguiremos todos aqueles que teimem em divulgar os textos impressos. Sabemos que, enquanto nós dormirmos, o diabo estará atento, com atenção redobrada. Então, o que será mais premente, o que os olhos vêem ou o que se pode ler nos livros? O que será mais devastador para as mentes dos adolescentes e crianças, a palavra proferida com gestos apropriados, ou a palavra morta, impressa nos livros? É urgente expulsar das nossas cidades as gentes do teatro, tal como já fizemos com os espíritos indesejáveis”.
Logo, a única solução para a crise reside na esperança de uma grande caça às bruxas que estão contra nós, e sobretudo contra os jovens que querem aprender a arte do Teatro: só assim nascerá uma nova geração de comediantes que aproveitará desta nossa experiência e dela tirará benefícios inimagináveis na procura de novas formas de representação".

27 de Março de 2013

Tradução:
Margarida Saraiva
Escola Superior de Teatro e Cinema

O Coordenador de teatro da Escola Técnica Municipal de Teatro, Dança e Música Fafi, Wilson Coelho, também disponibilizou no Facebook uma mensagem do escritor, roteirista, dramaturgo e cineasta paulista Fernando Bonassi, que eu coloco aqui para vocês:

NÓS FAZEMOS TEATRO
Fernando Bonassi


Contra a ignorância, o terror, a falta de educação, a propaganda de promessas, o conforto moral, a ordem acima do progresso, a fome, a falta de dentes, a falta de amores, o obscurantismo... nós fazemos teatro.
Fazemos teatro pra dar sentido às potencialidades, pra ocupar o tempo, pra desatolar o coração, pra provocar instintos, pra fertilizar razões, por uns trocados, por uma boa bisca, porque é fundamental e porque é inútil.
Pra subir na vida, pra cair de quatro, pra se enganar e se conhecer... contra a experiência insatisfatória; contra a natureza, se for o caso, nós fazemos teatro. Fazemos teatro pra não nos tornarmos ainda pior do que somos.
Pra julgar publicamente os grandes massacres do espírito. Pra viabilizar a esperança humana, essa serpente...
Nós fazemos teatro de manhã, de tarde e de noite. Nós somos uma convivência de emoções, 24 horas distribuindo máscaras e raízes.
Nós fazemos teatro de tudo, o tempo todo, porque acreditamos que a vida pode ser tão expressiva quanto a obra e que devemos ter a chance de concebe-la e forni-la artisticamente. Porque estamos acordados. Porque sonhamos os nossos pesadelos.
Nós fazemos teatro apesar daqueles que, por um motivo que só pode ser estúpido, estejam “contra” o teatro.
Aliás, o que pode ser “contra” algo tão “a favor”? Nós fazemos teatro contra a mediocrização do pensamento; a desigualdade entre os iguais e a igualdade dos diferentes.
Nós fazemos teatro contra os privilégios dos assassinos de gravata, batina, jaqueta, toga,
minissaia, vestido longo, farda, camiseta regata ou avental.
Contra a uniformidade, nós fazemos teatro. Nós fazemos teatro contra o mau teatro que querem
fazer da realidade.
Nós fazemos teatro pra explicarmo-nos – ainda que mal – e ao mal de todos nós dar algum destino menos infeliz. Nós fazemos teatro pra morrer de rir e pra morrer melhor.
Pra entender o inestimável, se esfregar no infalível, resvalar na nobreza, experimentar as mais sórdidas baixezas, pra brincar de Deus...
Nós fazemos teatro, comendo o pão que os Diabos amassam, os pratos feitos que as produções financiam e os jantares que as permutas permitem. Nós temos fome da fome do teatro. Porque onde houve e há teatro, houve e há civilização.
Fazemos teatro sim, tem gente que não faz e está morrendo, essa é que é a verdade.


FELIZ DIA DO TEATRO PARA TODOS!!!

Fontes:

http://educacao.uol.com.br/biografias/dario-fo.jhtm
http://www.world-theatre-day.org/en/picts/WTD_Fo_2013_portugal.pdf

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